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Jornalista, artista circense, bailarina, atriz. Tudo com um pseudo na frente. Twitter: @rayaneataide E-mail: rayane_ataide@hotmail.com

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A menina que roubava livros



“(...) _ Cem metros_ incitou-a._ aposto que você não consegue me ganhar.
Liesel não estava disposta a engolir nada daquilo.
_ Aposto que eu consigo.
_ Você aposta o quê, Saumenchzinha? Tem algum dinheiro?
_ É claro que não. Você tem?
_ Não.
Mas Rudy teve uma ideia. Era o menino apaixonado vindo à tona.
_ Se eu ganhar, eu beijo você.



(...)

_ Então, vamos considerar empate?_ perguntou.
Rudy olhou-a com seus dentes afiados e os olhos azuis botocudos. Metade de seu rosto estava pintada de lama.
_Se der empate, ainda ganho meu beijo?
_Nem num milhão de anos_ disse Liesel.



(...)

Um livro desceu flutuando pelo Rio Amper. Um menino pulou na água, alcançou-o e o segurou com a mão direita. Sorriu. Estava afundado até a cintura na gélida água dezembrina.
_ Que tal um beijo, Saumench?_ disse.




(...)

Ele estava deitado com seus cabelos amarelos e os olhos fechados, e a menina que roubava livros correu em sua direção e desabou. Deixou cair o livro preto.
_ Rudy, acorde _ soluçou. Agarrou-o pela camisa e lhe deu uma sacudidela incrédula._ Acorde, Rudy _ e já então, enquanto o céu continuava a esquentar e a despejar uma chuva de cinzas, Liesel agarrava o peito da camisa de Rudy Steiner._ Rudy, por favor_ e as lágrimas se engalfinhavam com seu rosto. _ Rudy, por favor, acorde, que diabo, acorde, eu amo você. Ande, Rudy, vamos, Jesse Owens, não sabe que eu amo você? Acorde, acorde, acorde...
Mas nada se importou. Os destroços apenas subiram, mais altos. Montanhas de concreto com tampas de vermelho. E uma linda menina, pisoteada pelas lágrimas, sacudindo os mortos.
_ Vamos, Jesse Owens...
Mas o menino não acordou.




(...)

_ Meu Deus, Rudy...
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento à sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e, quando se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mãos estavam trêmulas, seus lábios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo um erro de cálculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da Rua Himmel.




(...)

Tive vontade de dizer muitas coisas à roubadora de livros, sobre a beleza e a brutalidade. Mas que poderia dizer-lhe sobre essas coisas que ela já não soubesse? Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana.




(...)

Tudo que pude fazer foi virar-me para Liesel Meminger e lhe dizer a única verdade que realmente sei. Eu disse à menina que roubava livros e a digo a você agora.

UMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA
Os seres humanos me assombram.


Markus Zusak

1 coisitas:

Kate disse...

Amei esse livro e sei lá pq diabos, me identifiquei com Liesel!